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Não existe racismo no Brasil, diz Mourão ao lamentar morte de homem negro no Carrefour de Porto Alegre

O caso foi registrado no Carrefour de Porto Alegre

Crédito: Reuters - 21/11/2020 - Sábado, 10:39h
Brasília - O vice-presidente Hamilton Mourão classificou como lamentável a morte de João Alberto Silveira Freitas, homem negro espancado até a morte em um supermercado Carrefour, em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, mas afirmou que seria um caso de "segurança totalmente despreparada", e não de racismo.

"Para mim no Brasil não existe racismo, isso é uma coisa que querem importar aqui para o Brasil. Isso não existe aqui", disse Mourão ao ser perguntado se o caso de Freitas demonstraria um problema de racismo no país.

Diante da insistência dos jornalistas, o vice-presidente voltou a afirmar que dizia "com toda a tranquilidade" que não existe racismo no Brasil.

"Eu digo para vocês o seguinte, porque eu morei nos Estados Unidos. Racismo tem lá. Eu morei dois anos nos Estados Unidos, na minha escola que eu morei lá, o pessoal de cor andava separado, que eu nunca tinha visto isso aqui no Brasil. Saí do Brasil, fui morar lá, era adolescente e fiquei impressionado com isso aí. Isso no final da década de 1960", afirmou.

Mourão admitiu que a alta desigualdade social existente no país afeta mais os negros, mas não relacionou a falta de acesso a bens e serviços ao racismo, apenas à pobreza. Questionado sobre a violência policial atingir mais negros, Mourão afirmou que o caso de Porto Alegre não é de violência policial, mas de segurança.

"O que acontece: naturalmente aquela pessoa que está em desvantagem social, ou que vive em uma área que é mais difícil, vamos colocar, uma área de favela, onde está exposto a questão do crime organizado, de tráfico, essa coisa toda, então, grande parte das pessoas que lá vivem, infelizmente, são pessoas de cor. Isso é uma realidade", afirmou.

REAÇÃO

O presidente do Supremo Tribunal Federal, Luiz Fux, fez uma homenagem a Freitas na sexta-feira, em evento de assinatura de convênio com a Faculdade Zumbi dos Palmares.

"Gostaria preliminarmente, antes de iniciarmos este evento, pedir um minuto de silêncio em homenagem a João Alberto Silveira Freitas, negro, 40 anos que foi morto na noite de ontem por seguranças de um supermercado em Porto Alegre", disse.

"Independentemente de versões, o que deve nos preocupar é a violência exacerbada. Toda violência é desmedida e deve ser banida da sociedade. Mas esse episódio é um triste episódio, exatamente no momento em que nós comemoramos o Dia Nacional da Consciência Negra", emendou.

O presidente do Congresso Nacional, senador Davi Alcolumbre (DEM-AP), também usou as redes sociais para comentar a morte de Freitas.

"No Dia da Consciência Negra, o assassinato brutal de João Alberto Freitas, espancado até a morte por seguranças de um supermercado, em Porto Alegre, estarrece e escancara a necessidade de lutar contra o terrível racismo estrutural que corrói nossa sociedade", disse.

A ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, foi outra integrante do governo a se manifestar sobre o assassinato pelas redes sociais. Contudo, não fez qualquer referência ao fato de o assassinato ter sido perpetrado contra um homem negro.

"A vida de mais um brasileiro foi brutalmente ceifada no estacionamento de um supermercado, no Rio Grande do Sul. As imagens são chocantes e nos causaram indignação e revolta", disse ela, em uma das postagens.

O CASO

João Alberto Silveira Freitas, 40 anos, foi morto ao ser espancado por seguranças de uma loja do Carrefour Brasil em Porto Alegre, na noite de quinta-feira, véspera do feriado da Consciência Negra em várias cidades do país, em mais um caso de violência ocorrido nas dependências do grupo no país.
Freitas teria discutido com uma caixa do supermercado, que chamou a segurança da loja.

Um vídeo do momento do espancamento mostra Freitas sendo agredido por dois homens, identificados como Magno Braz Borges, segurança do Carrefour Passo D'Areia, e Giovani Gaspar da Silva, policial militar temporário. De acordo com testemunhas, Silva estaria fazendo compras quando participou do espancamento.

No vídeo, Freitas aparece sendo agarrado por um dos homens enquanto o outro dá socos em sua cabeça. Depois, um dos homens coloca o joelho nas costas do homem enquanto o outro continua batendo. Uma mulher, identificada depois como também funcionária do Carrefour, de acordo com a mídia local, filma a agressão de perto.

A polícia foi chamada depois que Freitas já estava imóvel. Uma ambulância chegou ao local, mas o homem agredido já estava morto.
Os dois agressores foram presos em flagrante e autuados por homicídio triplamente qualificado.

Em nota, a Brigada Militar --como é chamada a Polícia Militar do Rio Grande do Sul-- informou que Silva não é policial efetivo, não estava em serviço policial e tem atribuições restritas a atividades administrativas e videomonitoramento. Segundo a BM, a conduta de Silva fora do horário de trabalho será "avaliada com todos os rigores da lei".

Em um vídeo publicado nas redes sociais, o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSDB), ao lado da chefe da Polícia Civil, delegada Nadine Anflor, e do comandante-geral da Brigada Militar, coronel Rodrigo Mohr, afirmou que as imagens causam indignação e que todas as circunstâncias estão sendo apuradas para que os responsáveis sejam punidos.

"Todo o esforço do Estado estará na apuração para que os responsáveis por esse crime enfrentem a Justiça, tendo a sua oportunidade de defesa. Mas as cenas são incontestes de que houve excessos que deverão ser apurados", disse o governador.

Em entrevista à Rádio Gaúcha, Mohr afirmou que será aberto um Processo Administrativo Disciplinar e que o PM temporário deve ser expulso da corporação, além de responder a processo criminal na Justiça.

"Como é temporário, pode ser demitido a qualquer momento, apesar de ter a ampla defesa. O crime em si já nos habilita para tomar as medidas de exclusão", disse o coronel.

Mohr disse ainda que Freitas já estava fora do supermercado e a situação estava sob controle e não havia razão sequer para imobilização, muito menos para agressão.

Em nota divulgada através de suas redes sociais, o Carrefour Brasil afirmou que "lamenta profundamente" e classificou a morte como "brutal".

"Iniciamos uma rigorosa apuração interna e, imediatamente, tomamos providências cabíveis para que os responsáveis sejam punidos legalmente", diz o texto. "Estamos profundamente consternados com tudo o que aconteceu e acompanharemos os desdobramentos do caso, oferecendo todo o suporte para as autoridades locais", afirmou a empresa em comunicado.

Além disso, o Carrefour afirmou que vai fechar a unidade em respeito ao homem morto e entrar em contato com sua família. A companhia também informou que vai cancelar o contrato com a empresa responsável pela segurança e que o funcionário responsável pela loja no momento do espancamento será demitido.

Em meados de agosto, um homem passou mal e morreu em uma loja do Carrefour Brasil em Recife, e o corpo foi coberto com guarda-sóis e separado do movimento de clientes por meio de caixas e barreiras improvisadas, enquanto o estabelecimento seguiu funcionando, de acordo com relatos e imagens publicados em redes sociais. Na ocasião, a empresa afirmou que a forma como tratou da ocorrência foi inadequada e pediu desculpas.

Nesse caso, o Carrefour disse que mudou orientações aos funcionários para incluir a obrigatoriedade de fechamento da loja. 

Em 2018, um segurança de uma das lojas da empresa no Estado de São Paulo matou um cachorro de rua que circundava o estabelecimento após golpear o animal com uma barra metálica, num caso que causou revolta em redes sociais e de organizações de defesa dos animais.


Foto: Reuters
Vice-presidente Hamilton Mourão


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