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Tudo bem ser diferente!

 

Por Osny Arashiro - 19/03/2017 - Domingo, 03:42h

Criado em 2007, o Projeto Matsukko tem por objetivo apoiar os alunos brasileiros que frequentam escolas japonesas do ensino fundamental e médio, para não esquecerem do idioma materno, o português. A leitura de livros participa como ferramenta disciplinadora na boa formação do caráter e comportamento


No último dia 4, presenciei a Cerimônia de Encerramento das Classes de Português do Projeto Matsukko Ano Letivo 2016, em Hamamatsu (Shizuoka). No evento participaram 182 crianças brasileiras e seus respectivos pais e também representantes do Consulado do Brasil.


                                       


Assim essas crianças podem desenvolver uma comunicação melhor em casa, estreitando o relacionamento entre os pais e filhos, além de não esquecerem completamente o idioma português.


O Projeto Matsukko ensina a escrita e a leitura, incluindo aulas de história e cultura brasileira, enriquecendo os conhecimentos sobre o país de origem. A partir de 2008, o projeto foi formalizado como NPO Conselho de Apoio Educacional às Crianças Estrangeiras de Hamamatsu.


                                       


Por coincidência, naquela mesma semana, havia assistido pela net o filme O Silêncio, do Martin Scorsese, lançado recentemente e adaptado do livro O Silêncio (Chinmoku) de Shusaku Endo.


O filme mostra um período conturbado do Japão e a perseguição ao Cristianismo no século 17. Como sabem, os jesuítas portugueses iniciaram o Cristianismo no Japão e lançaram o primeiro dicionário japonês/português, de autoria do padre João Rodrigues em 1603.


No filme podemos ouvir algumas expressões do nosso idioma, por exemplo, "padre", "espírito santo", "amém", "paraíso", "confissão" entre outras. Os japoneses, devotos cristãos, estudavam o português para melhor compreender os ensinamentos dos jesuítas.


 

                                       


Quatro séculos depois, são os "brasileirinhos" quem estudam o idioma português no Japão, para não esquecer a língua materna.


 

Durante a cerimônia de encerramento, alguns alunos foram na frente ler em voz alta um livro de sua preferência. Confesso que naquele momento, lembrei dos meus tempos de banco escolar, do primeiro ano primário. A professora lia todos os dias algumas páginas do livro Robinson Crusoe, do escritor inglês Daniel Defoe. Assim despertava o interesse à leitura, quando ainda éramos iniciantes do bê-á-bá.


A aluna da 6ª série, Gabrielle Kaori Toyonaga (foto abaixo) fez a leitura do livro Tudo bem ser diferente, de autoria do americano Todd Parr, renomado escritor infantil que sabe despertar os bons sentimentos com desenhos simples, abordando a inclusão social, as diferenças, deficiências, preconceitos entre outros aspectos da natureza humana.


 

                                     


 

O livro é uma tradução do original It's Okay To Be Different, lançado no Brasil pela Panda Books, 2002. Durante um intervalo da cerimônia, pedi emprestado o livro e tirei algumas fotos das páginas, pois achei seu conteúdo muito interessante e aqui compartilho com os leitores:


 

                                     


 

Tudo bem ter um dente a menos (ou dois ou três)

 

Tudo bem precisar de alguma ajuda

 

Tudo bem ter um nariz diferente


 

                                     


 

Tudo bem ter uma cor diferente

 

Tudo bem não ter cabelo

 

Tudo bem ter orelhas grandes


 

                                     


 

Tudo bem ter rodas

 

Tudo bem ser pequeno, médio, grande, grandão

 

Tudo bem usar óculos


 

                                     


 

Tudo bem conversar sobre seus sentimentos

 

Tudo bem comer macarrão com almôndegas na banheira

 

Tudo bem dizer não para coisas ruins


 

                                     


 

Tudo bem ter vindo de um lugar diferente

 

Tudo bem ser tímido

 

Tudo bem chegar em último


 

                                     


 

Tudo bem dançar sozinho

 

Tudo bem ter uma minhoca como animal de estimação

 

Tudo bem ter orgulho da gente mesmo


 

                                      


 

Tudo bem ter mães diferentes

 

Tudo bem ter pais diferentes

 

Tudo bem ser adotado


 

                                     


 

Tudo bem ter um amigo invisível

 

Tudo bem fazer algo legal para alguém

 

Tudo bem perder as coisas de vez em quando


 

                                     


 

Tudo bem ficar bravo

 

Tudo bem fazer alguma coisa legal para você

 

Tudo bem ajudar um esquilo a colher nozes


 

                                     


 

Tudo bem ter diferentes tipos de amigos

 

Tudo bem fazer um pedido

 

Tudo bem ser diferente. Você é especial e importante apenas por ser como você é. Com amor,Todd


 

                                   


 

No Japão, o livro foi lançado em 2008 e recebeu o título Eeyan Sono Mamade (foto abaixo). A expressão eeyan é da região de Kansai (Kansai-ben) e corresponde ao conhecido ii desu, ii dayo (いい です, いい だよ) (bom! legal!). Então na expressão de Kansai, no lugar de dizer ii se diz ee. Quanto a Sono Mamade, significa: assim, desse jeito.


 

Ufa!! Então faz sentido, o título do livro traduzido livremente em japonês fica algo assim: Tá legal, assim desse jeito!


 

                                   


Acredito que o livro do Todd Parr desempenha um grande papel na formação do caráter das crianças e adolescentes, em qualquer parte do mundo. Trata-se de um grito de alerta urgente para reavaliar conceitos de relações humanas e sociais, seja no trabalho, seja nas escolas onde ocorrem a conhecida prática do ijime, o bulliyng.


 

Todas as vezes que um grupo se une para oprimir um "semelhante diferente", uma pessoa mais fraca, um estrangeiro, aquele que tem cabelos de cor diferente, o nascido em outra região, aquele que destoa do geral, esse grupo opressor se assemelha ao instinto animal dos substantivos coletivos, a manada (elefantes, bois), a matilha (cães), a alcateia (lobos) e por aí vai. São como chacais a atacar em bando a vítima mais fraca! Será que a prática do bulliyng faz bem para o ego?


A esses grupos opressores chamarei mesmo de corja! Pois para eles, "se for passar a noite na cocheira, tem que ter o mesmo cheiro do cavalo para não incomodar".


No Japão tem um provérbio que diz assim: Deru kui wa utareru (出る 杭 は 打た れる) que significa em tradução livre: A estaca que se sobressai leva marretada. Ou a variante: O prego que se sobressai é martelado.


 

Talvez por isso, culturalmente no Japão a coletividade é melhor vista em relação ao individualismo. Quem destoa do coletivo é o diferente. Mas tudo bem ser diferente!

 

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